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A conversão do coração e a missão

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A conversão continua a ser uma palavra muito pesada no dicionário e na gramática da vida da maioria dos cristãos... Talvez porque, mais do que um desafio permanente da fé, da inteligência e do coração ela apareça apenas (e só) para muitos como um pesado fardo que Deus e a Igreja se encarregam de nos recordar a toda a hora.


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Paulo, esse perseguidor inquieto, nos ensina que a conversão começa com uma viagem que nos leva a cruzar o caminho... O nosso com o de Deus e o nosso com cada irmão e irmã. Porém, ao cruzarmos este caminho, esbarramos no primeiro momento, com o desafio da humildade, que nos provoca e proporciona uma revisão de vida, não por parcelas isoladas, mas da vida toda, mesmo das páginas mais escuras, e aí nos deixa ver a luz de Deus nas muitas noites que criamos sempre que nos fechamos ao amor. É o começo da nossa colaboração com a Graça de Deus. Aqui Deus é protagonista, mas não nos dispensa. Da nossa colaboração com a Graça nasce em nós a certeza enraizada de que Deus é amor e que todos fazemos parte do projeto de Sua salvação. Em um segundo momento, seremos provocados pelo desafio da Missão. E assim, o caminho que se nos apresenta agora como desafio não é mais um penar, mas torna-se, isso sim, e essencialmente, num "caminho de damasco" onde queremos deixar-nos derrubar de todas as nossas falsas seguranças, deixar-nos curar pela força do amor que se faz misericórdia e gratuidade.

Enraizado em nós o Amor, a Misericórdia, que outra coisa não é se não o Amor Pascal, então tomamos a consciência de que somos discípulos, isto é, que com o Mestre precisamos re-aprender os caminhos da vida, daquela vida verdadeira e autêntica, daquela verdade que liberta e salva, daquele amor que converte e cura... e por isso é o tempo para fazer a experiência profunda da intimidade de Deus, de perscrutar os desígnios do Seu coração paterno...é o tempo do silêncio que preenche cada recanto do coração dos discípulos e que saradas as feridas o habilita para a missão que o próprio Deus rasgou diante do seu horizonte.

O tema da conversão, antes de ser dirigido aos destinatários da missão, é apontado pelo DA como exigência fundamental para a própria Igreja. Com o mesmo espírito do Vaticano II, Aparecida analisa que, na atual conjuntura de grandes mudanças, "sentimo-nos desafiados a discernir os 'sinais dos tempos'" (DA 33) e "a assumir uma atitude de permanente conversão pastoral" (DA 366). Na mudança global a Igreja precisa mudar também, mas não apenas pastoralmente "seu jeito de ser": ela precisa ser evangelizada de novo para converter-se numa Igreja cheia de ímpeto e audácia evangelizadora (cf. DA 549). Conversão é um convite para Igreja e não, primeiramente, para o mundo. O conteúdo dessa conversão consiste no surpreendente e profundo re-encantamento com a essência do Evangelho, um Evangelho assumido e vivido não como doutrina, mas como "práxis de vida baseada no dúplice mandamento do amor". Essas palavras do papa Bento XVI indicam um caminho a seguir, aparentemente quase óbvio: "não temos de dar nada como pressuposto e descontado, todos os batizados são chamados a 'recomeçar a partir de Cristo'" (DA 549).

De que maneira podemos suscitar em nossos batizados e em nossas comunidades uma abertura verdadeiramente missionária sem uma perspectiva genuinamente sem fronteiras, católica, atenta e sensível ao mundo todo? Sem esse respiro, corremos o risco de cair "na armadilha de nos fechar em nós mesmos" (DA 376), numa dinâmica centrípeta e, afinal, egocêntrica, traindo a missão e o espírito do próprio Evangelho.

Ainda hoje, apesar de nossos esforços, somos tentados a compreender a missão a partir de nós. O princípio da missão consiste no seguinte: não podemos esperar que as pessoas venham a nós, precisamos nós, irmos ao encontro delas e lhes anunciar a Boa Nova ali mesmo onde se encontram. Isso parece quase óbvio. No entanto, na prática, a Igreja sempre teve a tentação de evangelizar os povos a partir de sua própria condição, permanecendo em seu lugar, a partir de sua própria cultura, enviando e delegando seus missionários, mas sem se envolver num movimento de saída e de inserção nas situações que desejavam evangelizar.

Uma Igreja enviada é uma Igreja que está fora de casa, que faz a experiência radical do seguimento, do despojamento e da itinerância, como companheira dos pobres (cf. DA 398) e como hóspede na casa dos outros. O discípulo é essencialmente um peregrino e um enviado que deixou casa, irmãos, irmãs, pai, mãe, filhos, terras, por causa de Jesus. Esse Jesus disse: "Eu sou o Caminho" (Jo 14, 6) e não: "Eu sou a chegada". Jesus inverte a perspectiva de Tomé, que queria conhecer o caminho a partir do ponto de chegada: "Senhor, não sabemos para onde vais. Como podemos conhecer o caminho?" (Jo 14, 5). Esta identificação de Jesus com o caminho foi algo de marcante para os primeiros cristãos. Eles se autodenominavam de "pertencentes ao Caminho" (At 9, 2).

A palavra "caminho" aparece mais de cem vezes no DA. Isso indica que o caminho não afasta a Igreja da sua origem ou das suas raízes. Pelo contrário. É um encontro com suas raízes em Jesus, "o Deus de rosto humano". A missão faz da Igreja uma peregrina livre de qualquer amarra contextual, num caminhar cheio de imprevistos, aberto, desarmado na simplicidade e na pobreza, que convida continuamente descobrir Deus de novo no pobre e no outro.

Na história da evangelização, a missão foi entendida a partir da cristandade, como uma saída geográfica para territórios não-cristãos, que tinha como objetivo a expansão e a implantação da Igreja no mundo. O próprio conceito de Ad Gentes estava impregnado de uma forte visão etnocêntrica e eclesiocêntrica. Os destinatários desta missão eram as gentes ou pagãos, dois termos com conotações depreciativas. Quem se considera "povo eleito" chama os outros de gentes ou de pagãos, que significam no latim "rudes", "toscos", "camponeses", "atrasados". A missão cristã aos diferentes povos foi muitas vezes marcada por um trágico senso de superioridade e por uma presunção civilizadora absolutamente secular.

Seria, então, a própria missão Ad Gentes uma "estrutura caduca" da qual fala o DA 365? Em certos sentidos sim. Contudo, algumas tentativas em abandonar esse conceito e essa prática, curiosamente, não deram certo. Uma delas foi o de substituir a palavra "missão" pelo termo mais bíblico "evangelização". A Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi de Paulo VI, representou um esforço nessa direção, na tentativa de expurgar a missão da Igreja de toda uma ideologia exclusivista, eclesiocêntrica, hegemônica e expansionista. Nessa operação de boas intenções, porém, essa ideologia disfarçadamente permaneceu nas práticas das Igrejas, e o problema das mediações históricas do Evangelho, indelevelmente marcadas por limitações e pecados, não foi substancialmente resolvido. Além do mais, o conceito de "evangelização" era perigosamente menos amplo do que "missão": evangelização é missão, mas missão não é somente evangelização, é também diálogo, promoção humana, testemunho, todas as atividades que servem para libertar o ser humano da escravidão na presença do Reino vindouro.

O caminhar da missão em direção a esse Reino é sempre um caminhar no Espírito que exige um trabalho permanente e penitencial de discernimento entre desejo, esperança, riscos a serem assumidos e realidade. Esse discernimento é feito a partir das origens do caminho, e constitui o elemento essencial para não confundir a fidelidade ao Senhor com a fixação em esquemas limitados. As estruturas caducas que precisam ser abandonadas (cf. DA 365) estão sedimentadas no profundo de nossa consciência eclesial. Por isso, necessita uma ação insistente, paciente e participativa de mudança de mentalidade da qual possam surgir "processos constantes de renovação missionária" (DA 365).

Foi preciso que houvesse a virada da modernidade, o declínio do mundo teocêntrico medieval, que o Cristianismo perdesse o poder que tinha de instancia normativa dentro da sociedade para que aparecesse a verdade inicial em toda a sua pureza. O Cristianismo não é apenas uma religião. Ou, se for, é uma religião da saída da religião. É um caminho de fé que opera pelo amor, um estilo de viver, nas pegadas de Jesus de Nazaré, que passou pelo mundo fazendo o bem.

Os gestos, os rituais, as normas, as formulas religiosas são boas desde que enunciem a verdade de uma fé, de um sentido de vida que se expressa na abertura a Deus e ao outro. E por isso são relativas. Pode ser que algumas expressões religiosas que foram muito adequadas à determinada época histórica sejam extremamente inadequadas a outra ou outras. O único absoluto é Deus. O resto... É resto mesmo. Isso é que, hoje como ontem, o Cristianismo é chamado a proclamar diante do mundo.

Como discípulo, formado permanentemente na escola do Mestre, e mudados os critérios da inteligência e do coração no modo de olhar para nós mesmos e para os outros, tomamos consciência de que somos apóstolos... É o tempo de re-iniciar viagem na estrada de Damasco que é a vida de todos os dias, quando nos tornamos testemunhas do Amor que jamais passará, da Vida que jamais acabará, da Esperança que nada nem ninguém nos podem tirar... e assim, do jugo pesado e do triste penar da conversão (que tantas vezes pensamos ser um exercício masoquista para consolar o Deus sádico) percebemos que sem conversão não há caminho, não há cristão, não há missão...e descobrimos sim, que o caminho é exigente mas possível...porque Deus vai a nossa frente!

Por: Pe. Antônio Motyca