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Especial Natal: O início do advento e toda a sua história biblíca

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Toda a história bíblica do Antigo Testamento, a dos patriarcas, dos profetas, tudo nele prepara para um reino que há de vir. Todos os judeus imaginavam um reino terrestre, um reino temporal, baseado em uma raça, que tornaria o povo eleito um grande povo. Só com a revelação anunciada por Cristo, ao afirmar que seu reino não é deste mundo, é que esse equívoco começou a ser esclarecido. O Deus de Abraão, de Isaac e de Jacob envia o descendente final dessa linhagem e é Ele que define uma nova dimensão: "ide a todos os povos até os confins da terra". A nova família cristã será constituída de muitas raças, de muitos lugares, de muitas épocas.

Advento

Vemos depois que, mesmo com todos os ensinamentos e esclarecimentos contidos no Novo Testamento até nossos dias, há uma tendência generalizada de estabelecer um lugar para esse reino, um espaço para onde caminham  todos os cristãos. Jesus fala do reino dos céus, mas ao mesmo tempo nos ensina a rezar que seja feita  a vontade do Pai na terra como no céu. Ora estamos ouvindo falar de céu e ora de céus, que diferença existe entre eles? Quando pedimos "venha a nós o vosso reino", o que exatamente estamos pedindo? Que tipo de reino se trata e por que esse pedido foi colocado na oração?

Muito embora Jesus tenha se referido a lugar quando falava aos discípulos, "para onde eu vou vós não podeis ir, pois vou para a casa de meu Pai", isso não quer dizer que fale de um espaço, mas sim de um estado de alma. Parece que quando fala de céus, esta falando que Deus está em todos os lugares, onipresente,  a palavra céus no plural, poderia ser as nossas almas que quando estão em união com Ele, se tornam um céu. Quando fala de céu, no singular, esta falando de um estado de espírito envolvendo a comunhão universal,  no qual o tempo já não conta mais. Cristo usa, para explicar essa situação, uma linguagem popular para ser entendido, mas já explicava para a samaritana no poço de Jacob: "Tempo virá em que não se adorará aqui no monte ou no templo de Jerusalém, pois Deus é espírito e é em espírito que deve ser adorado". O espírito não está sujeito ao confinamento num espaço, por maior que ele seja, pois de qualquer modo haveria, nesse espaço, um limite o que contraria o conceito de Deus infinito e presente em todos.

Noutra ocasião, explica: "Felipe, quem me vê, vê o Pai, pois o Pai está em mim e eu Nele". Não cabe aí um espaço, mas uma condição atemporal. Na pessoa física de Cristo havia um céu e esse céu era Ele próprio unido ao Pai.Vemos que não há na linguagem humana uma maneira adequada para expressar como é o que chamamos de Céu. Não há um lugar lá em cima, ou lá embaixo. Torna-se, assim, necessário usar de linguagem figurada. Na linguagem humana tentar explicar o céu é como dizer como é a cor para um cego, fazemos muitas tentativas para nos fazer entender.

O conceito de espaço e de lugar está tão intimamente ligado às nossas mentes a ponto de a liturgia ficar impregnada do conceito de lugar: "caminhamos na estrada de Jesus", "guarda-nos para a vida eterna," e expressões semelhantes. Rezamos para chegar à vida eterna, para entrar na vida eterna. A Igreja caminha nas estradas do mundo rumo ao céu. A não ser por tais pedidos que envolvem espaço, todo o resto na liturgia está impregnado do presente, sem nenhuma indicação de lugar. Assim, rezamos: "que vivam bem felizes no reino que para todos preparastes". "Dai força para construirmos juntos o vosso reino que também é nosso." "Enquanto vivendo a esperança..." Se juntos estamos construindo o reino, então esse se inicia com o nosso nascimento, demora a nossa vida inteira e é eternizado, plenamente, quando da nossa passagem da vida terrena para um eterno presente, quando passamos de uma condição humana para uma condição divina. Então, de que tipo de estrada estamos falando? Para que lugar estamos indo? Onde devemos entrar? Esse tipo de oração pode caber nos nossos conceitos, acostumados às condições espaciais,  mas não nos ajuda a entender o seu real alcance e assim vamos ficando com uma mera figura de representação. Tanto a fé quanto a esperança só podem ser vividas no nosso tempo terreno.Somos amparados, em nossos trabalhos e sofrimentos, pelos pedidos de todos os outros irmãos nossos, espalhados pela terra ou que por ela já transitaram. Uma comunhão que não pode ficar restrita a espaço. A oração só faz sentido quando o humano e o divino dialogam, crendo no SER presente, embora invisível, pois nEle somos e sem Ele não existiríamos. Esse diálogo não existiria se não tivesse havido a redenção. Essa condição não é fruto de esforço humano, só começou a ser possível a partir da cruz, esse marco que divide a nossa existência em antes e depois. Podemos dizer que a oração é um aprendizado que dura a vida inteira. Vemos ainda, que a oração comunitária está presente na Igreja desde os primórdios (Atos1-12) até nossos dias.  Poder rezar e perdoar é  concessão divina colocada ao alcance humano. Vale lembrar uma passagem de Goethe(1749-1832):  "No momento em que alguém se compromete a providência se move. Uma verdadeira torrente de eventos surge a partir da decisão, suscitando a favor da pessoa, toda parte de incidentes, encontros e assistência que ninguém teria sonhado obter"

A quem é prometido esse reino? Muito embora toda história bíblica do Antigo e do Novo Testamento tenha apontado para ele, algumas pistas  mais incisivas foram  registradas para nosso conhecimento e reflexão. No nascimento de Cristo, há por exemplo, o anúncio aos pastores que vigiavam seus rebanhos: "Paz na terra às pessoas de boa vontade". Porque com  pessoas de boa vontade tudo pode ser feito, desde o menor até os mais extraordinários atos. Pessoas de boa vontade estão dispostas a deixar sua atual posição por outra, por um bem maior. São capazes de sair de seu conforto para tentar uma situação nova. Essas pessoas estão isentas do enorme peso que amargura e o ressentimento acarretam. Pessoas de boa vontade carregam a esperança que as torna leves para se locomoverem. Quanto às outras, temos que conviver com elas do melhor modo possível, com muita paciência, sem julgá-las, pois dificilmente mudarão suas atitudes enquanto não conseguirem enxergar, através das nossas atitudes, uma realidade diferente da que estão acostumadas. "Vede como eles se amam" era uma realidade que os gentios podiam ver nos primeiros cristãos. Alguma coisa havia mudado na vida deles que, embora invisível, estava presente nas suas atitudes e no seu comportamento. Se não tivesse essa capacidade de fazer mudanças, o cristianismo não passaria de uma moda. A moda não muda as pessoas, apenas as reveste de um aparato.

Uma outra  pista foi dada  na parábola do semeador. As sementes que caem em terra boa não tem rendimento igual. Isso nos leva a  concluir que mesmo entre as pessoas de boa vontade o resultado é diferente. Cada semente tem o seu tempo próprio para germinar, florescer e dar frutos. A generosidade não é uma obrigação que sujeita a todos do mesmo modo, cada um dá daquilo que tem e sua medida é uma medida mensurada pelo amor nela contida. Quem muito amou, receberá uma porção maior. Entre os cristãos haverá sempre o problema das prioridades, alguns desejos, algumas vontades sempre têm a preferência. Devem ser  realizados em primeiro lugar, depois vem o restante. Todas essas prioridades acabam por inibir a generosidade e consequentemente a sua disposição de doar o seu tempo. Enquanto reservamos para nós mesmos a melhor parte e oferecermos o resto não teremos paz.  Aqueles que conseguiram o rendimento de cem nós os chamamos de santos, porque foi tal a sua doação e identificação com o Cristo que eles conseguiram a plenitude das suas vidas. Não doaram algo de si, mas doaram-se a si mesmos, sem reservas. Sua esperança está totalmente em Deus e nada mais pode lhes ser tirado, pois tudo que tinham já foi doado. Todo o tempo doado fica fora do alcance humano.

Uma passagem inquietante é a parábola da vinha. O proprietário planta uma vinha, cerca, faz todas as instalações necessárias e contrata arrendatários  para tocar o negócio. Na época da colheita manda seus representantes cobrar os direitos sobre a produção, mas eles são mortos pelos arrendatários. Envia seu próprio filho e este também é morto. O castigo final vem com a sentença: "Por isso vos digo que o reino de Deus vos será tirado e entregue a outro povo para que produza frutos." Significa que podemos perder o que nos foi oferecido como aconteceu com o povo eleito de Israel.

Outra passagem é a parábola do patrão que sai para contratar operários para a sua vinha. Sai de manhã  e até a última hora vai contratando quem encontra disponível. No final do dia paga aos últimos que trabalharam uma hora a mesma moeda de prata que pagara aos que chegaram de manhã. Com isso fica demonstrado que o reino não pode ser adquirido somente com o peso dos nossos dias. Antes houve uma escolha, todos foram chamados, todos foram trabalhar, uns mais outros menos, mas fica explicito que confiaram na palavra de quem os contratou, deixam por conta dele o critério de remuneração. Podemos concluir que haverá cristãos que trabalharão a vida inteira na vinha, eles receberão o mesmo daqueles que encontraram o Cristo já no final de seus dias. Porque a misericórdia e a generosidade de Deus são infinitas, não podem ser medidas por critérios humanos. Os convidados da última hora também participarão do Reino. Isto já estava explicito quando os Israelitas, na travessia do deserto, mordidos pelas serpentes, olhavam contritos para a Serpente de Bronze, símbolo da cruz, levantada por Moisés.(Nun.21,4-9) Vemos também esse exemplo no companheiro de cruz  quando olha para Cristo crucificado. No seu olhar estava implícito o arrependimento e a esperança, diferente de Judas que se desespera com a traição.

Do mesmo modo, podemos ver a semelhança do reino, nas bem-aventuranças, quando o reino dos céus pertence aos pobres em espírito, aos que sofrem, aos mansos, aos misericordiosos, aos puros, aos que sofrem por amor à justiça. Há, aqui, uma mensagem dizendo que para os cristãos não é suficiente não matar, não roubar, não cobiçar. Essas coisas continuam vigentes, mas são obrigações que atingem todas as pessoas, crentes ou não, falam do respeito que é uma obrigação comum a todos os humanos. Ao cristão se pede que avance mais, que seja aquele que dá o primeiro passo, que se faça próximo de quem necessita, naquele lugar, naquela hora, com aquela pessoa. Vejam a parábola do bom samaritano. Pede-se que não se omita quando se apresenta a ocasião, nesse instante ele deve estar presente, se fazer presente para afastar injustiças, que faça prevalecer a verdade. Que não aceite meias verdades, pois elas, no fundo, não permitem que o interlocutor conheça o fato integral e assim não possa decidir pelo que é justo. Que não aceite o jogo das conveniências, que na maioria das vezes faz com que as injustiças se instalem e deitem raízes profundas, envenenando as relações sociais. 

Podemos imaginar que o reino seja como uma boa música, contém o som, o tempo e o silêncio. O que os nossos ouvidos percebem é o som, mas ocultos estão o tempo e silêncio. O tempo está presente para separar as notas, pois sem ele não haveria como ouvir o som. O silêncio, porém, é divino, porque nesse silêncio Deus se esconde e só pode ser compreendido se também ficarmos em silêncio. Tereza de Calcutá diz que o fruto do silêncio é a oração. Com razão, pois viemos do silêncio de Deus para a vida, para fazer a nossa história humana, numa época, num lugar, com determinadas pessoas e voltaremos para Ele nesse silêncio quando nossa história tiver terminado. Emergimos desse silencio para a história e para o som da vida nos nossos tempos e sairemos dela nesse mesmo silêncio, sem alarde, sem o som que alimentamos por tantos anos, somente haverá a nossa alma e seu Criador.

O Reino também é parecido com a vida que recebemos por puro dom do Criador, do mesmo modo que recebemos um tempo para torná-la o mais semelhante possível à  vida de Deus. Fomos chamados do nada, por Ele,  para participar da vida em toda a sua dimensão. Não sabemos por quanto tempo ela nos é dada. O certo é que ao final devemos devolve-la, acrescida da nossa história, de nossos atos, daquilo que pudemos construir.  O juízo final, "Vinde benditos de meu Pai, recebei por herança o Reino preparado para vós desde a fundação do mundo, pois tive forme e me deste de comer, tive sede e me deste de beber" é sobre o que construímos ou deixamos de construir. Daí, podermos afirmar que, na eternidade, conservaremos a nossa memória completa, nossa identidade completa. Nossa história, a soma de todos os nossos momentos, permanece conosco para sempre.

Deste modo a vida em Deus é uma torna-se descoberta surpreendente, como um tesouro encontrado, pelo qual tudo passa para segundo plano. Tudo é deixado de lado para estabelecer uma identidade única e indivisível. Uma sintonia que nos torna semelhantes com o Criador. Como aconteceu a um punhado de pescadores que deixaram tudo para seguir o Messias.Todos os seus atos refletem essa semelhança e a partir de Pentecostes encontra eco em todas as épocas. Vivemos a inquietude da unidade e da diversidade. S. Paulo diz aos romanos de seu tempo: "ninguém vive nem morre só para si". Por seus frutos conhecereis a árvore, um espinheiro não pode dar figos.  Pela sua vida se conhece o cristão, quando a vida fala por ele, de um modo único e envolvente. A vida toda pode ser uma palavra não pronunciada, mas que carrega uma dimensão imensurável.

E os nossos tempos? O tempo é a matéria prima com a qual damos forma à nossa vida, emprestamos-lhe um significado, damos-lhe um caráter, uma identidade pessoal única. Quanto desse tempo podemos reter conosco? Na realidade, nada. O nosso tempo só pode ser levado por outros. Nada do que retivermos para nós mesmos será aproveitado, o nosso tempo é para nós, como foi o Maná para os israelitas no deserto, só podemos ter a nossa porção diária, nada pode ser guardado para o dia seguinte, pois no dia seguinte terá perecido. Do mesmo modo também pedimos "o pão nosso de cada dia nos dai hoje", não é para amanhã é para agora. Por isso vivemos a esperança no dia a dia. Essa confiança completa é o que Deus espera de nós, "não vos preocupeis com o dia de amanhã". Deus sabe de que necessitamos, pois se Ele veste a erva do campo de beleza, se mantém um pássaro todos os dias, quanto mais a nós por quem Ele não poupou seu próprio filho da cruz, para pagar o nosso resgate e poder nos dar o título de filhos. Somos portadores de certificado de batismo que nos dá acesso à sua graça e à sua misericórdia. Somos os portadores do perdão que nos liberta do peso do nosso passado.

Construímos nos nossos tempos transitórios a nossa eternidade, pois só ela pode dar sentido a esse tempo.  E construímos essa eternidade com os dias vividos e não com os dias existidos. Essa vivência passa por dias nos quais a vida parece insuportável. Desde manhã até a noite são um peso sem medida, dias de opressão que parecem revirar as entranhas, dias de angústias e tristezas. E, apesar disso devemos iniciar cada manhã com a expectativa de que esse dia será melhor, saudá-lo como um pássaro o saúda com seu canto matinal. Diariamente, a nossa essência é totalmente remexida, até se tornar uma massa consistente que possa dar sustento àqueles que nos cercam.

O reino vem a nós para nos tornar pessoas prontas a aceitar a tarefa de viver uma existência que ultrapassa razões humanas. Ser o fermento que muda situações. Ser o sal da terra que tempera atitudes com mansidão e consegue se compadecer com o sofrimento. O cristão não é exatamente uma pessoa racional. Uma pessoa que carrega fé, esperança e amor é muito mais que um ser racional. Ele é capaz de fazer o que as pessoas racionais não conseguem fazer. Capaz de iniciativas que os racionais consideram loucura. Quantas dessas loucuras se tornaram realizações através dos tempos e chegaram até nós, unicamente porque alguém se esvaziou de si mesmo para dar espaço para que Deus possa operar através de seus braços e de sua alma?



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